Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 - Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 PDF Imprimir E-mail
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Estrada Cuiabá a Goiás em 1736
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JUSTIFICATIVA

O foco principal deste projeto é o caminho terrestre que passou a unir, em 1736/37, a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá às Minas dos Goiases.  Este caminho é um segmento da ligação terrestre que unia o Oceano Atlântico ao Pacífico, partindo da Bahia até o lado espanhol e, eventualmente, ao Oceano Pacífico, cortando, dessa forma, a parte central da América do Sul.

A localização da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá no centro da América do Sul foi anotada por Barbosa de Sá, nos anos de 1770.

“Acha-se esta vila sentada na parte mais interior da America austral na altura de quatorze graus não completos ao Sul da linha quase em igual paralelo com a Bahia de todos os Santos pela parte oriental e pelo ocidente com a cidade de Lima Capital da província do Perú distante de uma e outra costa  sete cinqüenta léguas que são as mil e quinhentas que tem a  Latitude nesta altura este continente; sentada à beira do rio Cuiabá um dos mais célebres braços do grão Paraguai e que  mais  aumenta suas correntes, de quem dista vinte léguas; cercada deste pela parte ocidental e austral e pela Setentrional da cordilheira que divide as vertentes do mesmo Paraguai das do grão-Pará distante dela seis léguas, em meio de dois pequenos rios coxipo açú e coxipó mirim que ambos desaguam no Cuiabá. Distante da Vila Boa de Goiás trezentas léguas, do Mato Grosso oitenta e do Arraial de Santo Antonio dos Arraiais cento e cinqüenta que são as povoações mais vizinhas que tem.”2

A ênfase deste projeto decorre da importância, para a Vila do Cuiabá, da abertura do caminho terrestre e também da necessidade de uma melhor compreensão a respeito da ocupação do espaço que veio a se constituir na Capitania de Mato Grosso. Este projeto abrange o período da abertura do caminho, em 1736/37, até 1818, quando este ganha maior importância, com a extinção quase total do fluxo monçoeiro.

O caminho de terra nasceu por força das necessidades dos habitantes da baixada cuiabana, que no início do século XVIII sofriam com as distâncias e dificuldades enfrentadas ao longo da rota das Monções  Fluviais3. Rota esta marcada por extensos obstáculos.

Para podermos avaliar com mais propriedade a distância percorrida, citamos aqui um trecho do livro Relatos Monçoeiros, de Afonso E. Taunay.

531 léguas ou 3.504 Km de percurso a percorrer, sendo que se distribuem em 152 no Tietê, 29 no Paraná, 75 no Pardo, 17 no Camapuã, 40 no Coxim, 90 no Taquari, 39 no Paraguai, 25 no Porrudos e 64 no Cuiabá. Além disso tudo era preciso adicionar os 11 quilômetros do varadouro de Camapuã e os 155 Km que medeiam São Paulo e Araritaguaba, perfazendo um total, entre água e terra, de 3.664 quilômetros.4

Adiante, Taunay acrescenta um detalhamento das dificuldades enfrentadas nos caminhos aquáticos:  “113 eram os saltos, cachoeiras e corredeiras a vencer:  55 no Tietê, 33 no Pardo, 24 no Coxim e uma no Taquari”.  O trecho pior era o do Rio Coxim, por ser ele que, em menor extensão (40 léguas), trazia dificuldades ainda maiores, com 24 saltos, corredeiras e cachoeiras.

Além de todas essas dificuldades geográficas pelas quais passavam os monçoeiros, acrescente-se a resistência permanente dos gentios das nações Caiapó, Guaicuru e Paiaguá, que dificultavam a viagem com ataques  constantes  às monções.   O Guaicuru,  índios cavaleiros, usavam cavalos andaluzes originários dos espanhóis.  O Paiaguá, índios canoeiros, dominavam como ninguém os rios e o gentio Caiapó, estes com presença marcante no trecho terrestre do varadouro de Camapuã.  É diante desse quadro de dificuldades que se encontravam os habitantes da Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá em 1736.

Contudo, Barbosa de Sá registrou que os índios não eram, então, uma dificuldade tão grande, pois em 1734 havia chegado à Vila uma Monção com 400 homens muito bem armados, com ordem do Rei para fazer “guerra justa” aos Paiaguá.  No comando desta tropa estava o Tenente General Manoel Rodrigues de Carvalho.  O resultado desta guerra foi a morte de 600 e o aprisionamento de 266 “gentios”.5

Entretanto, é de se supor que não foram só os gentios e as dificuldades geográficas que levaram o povo e as autoridades a clamarem pela abertura do caminho terrestre para Goiás.