Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 - Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 PDF Imprimir E-mail
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Estrada Cuiabá a Goiás em 1736
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Carlos Rosa6 observa com muita propriedade que a descoberta do ouro nas minas do Mato Grosso, entre o Sararé e o Galera (afluentes do Guaporé), foi feita pelos irmãos Fernando e Artur Paes de Barros em   1734,  como   consta   no  Anal  da  Vila  Bela   da   Santíssima Trindade. E com o ouro, surgiu, conseqüentemente,  um fluxo migratório para a região do alto Guaporé, dando início assim à formação de arraiais.

Estes arraiais necessitavam de víveres, ferramentas e outros bens para que pudessem se consolidar, implantando uma estrutura produtiva local de abastecimento; daí, portanto, a necessidade de abertura de alternativas para o transporte e comunicação.

Para tanto, foi aberto um caminho terrestre ligando a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá às minas do Mato Grosso, em julho de 1736, pelo Regente de Cuiabá, Brigadeiro Antônio de Almeida Lara.

Alcir Lenharo frisa que foram basicamente dois os fatores preponderantes para a abertura do caminho terrestre para Goiás:  o primeiro, a necessidade que a expansão acarretara, pois Mato Grosso e seus sítios auríferos significavam a parte avançada nas investidas dos colonos - para Lenharo, o caminho terrestre ligando Mato Grosso com Goiás pode ser visto como uma interligação natural de duas regiões que estavam integradas a um mesmo conjunto, o   “Complexo  da  Mineração”7 .   O segundo e decisivo fator, foi a pressão das correntes migratórias que flutuavam de região para região a procura de novos sítios auríferos.  Lembra também Lenharo  a  queda  relativa da produção de ouro das Minas Gerais, entre os anos de 1729-33, e, consequentemente, uma reorientação migratória para as minas dos Goiases, e daí para as novas descobertas ocorriam, no caso as minas do Mato Grosso:

É dentro deste contexto de fluxo e contrafluxo de populações que se faz a abertura do caminho para Goiás. A comunicação terrestre vinha consumar a integração do conjunto da mineração na frente ocidental e viabilizar a circulação do fluxo migratório.8

Existiram também outros fatores determinantes para a abertura do caminho terrestre. O Auto da Junta do Senado da Câmara do Cuiabá, de 18 de abril de 1736, refere-se claramente que

“(...) nas últimas canoas que vieram do povoado havia chegado a notícia de se fazerem grandes preparos, não somente no reino, mas em toda esta América para a guerra que por instantes se esperavam declaradas com a Coroa de Castela e por esta terra poder ser invadida pelos castelhanos em breve tempo, sem ter aonde lhe venha socorro, mais do que pela viagem do rio e este pode estar impedido pelos inimigos e por estas razões e por outras mais (...).”9

Como podemos notar, aí uma referência clara aos castelhanos, a preocupação estratégica das autoridades quanto a um possível embate.  O caminho serviria, então, tanto para o abastecimento quanto para a vinda de reforços militares e, pôr a salvo a população,  em caso de necessidade.

Esta preocupação é também visível e urgente no Termo do Senado da Câmara do Cuiabá, de 31 de maio de 1736:

 


(...) se entende havendo forma e caminho seguro para a arrecadação da Real Fazenda, como declara a ordem de Sua Majestade e pela viagem do rio não é seguro o caminho, porque além dos grandes riscos que há de cachoeira e gentio que tem investido as nossas tropas como proximamente sucedeu na do presente, os perigos dos Castelhanos por causa das guerras  podem com facilidade destruir as nossas tropas e para melhor segurança das remessas do ouro da Real Fazenda, bem comum do povo e conservação desta terra para o qual tem Sua Majestade recomendado que faça toda a humana diligência, em se abrir o dito caminho (...).10

Assim, como se pode ver, além da preocupação estratégica, as autoridades coloniaism também queriam criar uma via de colonização que permitisse estabelecer um melhor controle para as remessas do ouro da Real Fazenda.

Os moradores das minas dos Goiases já estavam em contato e articulados com a Bahia (currais do São Francisco), para onde havia grande fluxo de gado.11 E isso  desde  1732.

A Profa.  Gilka Salles deixa isso comprovadamente claro:

“...em 1730, a capitania de São Paulo expediu Bando determinando que o caminho de terra para Goiás era o seguinte trajeto:  São Paulo, Vila de Jundiaí, Mogi do Campo e Minas dos Goiases (...)”.

“1732:  Requerimento de 1733.  Bando de 22.08.1733.  Proibição qualquer picada.  O único caminho era obrigatório passar pelo registro do Jaguari Grande (Americana)’.  ‘Manoel Rodrigues Tomás e João Esteves Robalo estabeleceram ligação entre as Minas dos Goiases e os currais do São Francisco na Bahia’ em 1732.  Primeira boiada (1732) vinda de São Paulo, Minas Gerais e Currais como contrabando.”12

Sérgio Buarque de Holanda nos fala a respeito da normalização do fluxo de gado para São Paulo, partindo do Sul (Rio Grande do Sul), em 1733.  Também faz referência a respeito da normalização do fluxo de gado partindo do Nordeste (Currais do São Francisco), em 173213 . Assim, é de supor que havia a possibilidade dessas notícias e articulações terem chegado à Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, por via fluvial, na mesma época.   Talvez  esse seja mais um motivo para o surgimento dessa alternativa terrestre, levando em consideração sempre a necessidade de abastecimento do comércio e comunicação entre as minas.

Com  esses  fatores determinantes  expostos,  podemos  passar ao processo de abertura do caminho terrestre: