Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 - Estrada Cuiabá a Goiás em 1736 PDF Imprimir E-mail
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Estrada Cuiabá a Goiás em 1736
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“Apesar de ter sido posto em pregão, não tinha em quem nele se lançasse à vista do que mandaram vir perante si o Capitão Antonio de Pinho e Azevedo”.14

Azevedo nasceu em Portugal, na localidade de Arouca (Lamego). Veio para o Brasil muito jovem, tendo se deslocado para as minas do Cuiabá logo após seu descobrimento, no ano de 1725.  Era casado com a fluminense Dorotéia dos Prazeres, natural de Cabo Frio-RJ, com quem teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres.  Morreu em 1763, pobre e esquecido.

Homem de inúmeras qualidades e de grande coragem, como muito bem cita o Desembargador José de Mesquita15 , ficou estabelecido que o mesmo seria recompensado em 1.275 oitavas de ouro, a serem pagas somente 13 meses após o seu recolhimento às Minas de Cuiabá. Acompanharam-no nessa empreitada os camaradas do próprio Azevedo:

“... Clemente e Raimundo Tavares, Ignacio Tavares de Monsarate, Joaquim de Arruda, Pascoal Moreira, João Freire, João de Jesus, Salvador Pinto, Simão Roiz, Bernardo da Silva, Francisco e Vicente Corrêa, sendo os dois últimos pilotos de navegação dos rios.  Cada um desses 12 recebeu  200  oitavas   de ouro.”16

Azevedo partiu em 20 de junho de 1736 do sítio do São Gonçalo, onde o ouvidor “passou mostra a toda tropa e achando conforme o ajuste que tinham feito, a despediu no mesmo dia”.  Em requerimento posterior, reiterou os dados acima, referindo à sua partida do São Gonçalo, à margem do Rio Cuiabá, com a companhia de “12 camaradas brancos bastardos, mulatos ou crioulos capazes de pegar em armas”, mais 10 escravos seus e 6 índios de sua administração.17 Partiu em direção às Minas dos Goiases, cortando serra acima e cruzando o sertão infestado pelo Gentio Caiapó que, segundo Luiza Volpato18 , dificultava toda e qualquer empreitada por esses sertões.  O próprio Capitão Antonio de Pinho e Azevedo, em seu requerimento de indenização, conta a morte de “4 escravos e também a falta de 40 e tantos cavalos que o gentio lhe matou”.19

Mesmo com todas as dificuldades sofridas, o Capitão Antonio de Pinho e Azevedo conseguiu chegar às “Minas dos Goiases”, onde pôde se refazer com mantimentos  e   de  todos   os  prejuízos  da  longa  jornada. Após esse breve descanso, tomou caminho de volta, chegando em 29 de agosto de 1737 à Vila Real.  Por ele utilizado, segundo consta em Barnabé de Mesquita, foi de exatos um ano, dois meses e nove dias.

Roberto Southey, afirma que a primeira estrada entre Cuiabá e Goiás foi aberta por dois paulistas:  Theodoro Nobre e seu genro Ângelo Preto Nobre, auxiliados por índios Borôros.20

Essa afirmação de Southey, citando Theodoro Nobre como pioneiro da abertura do caminho terrestre, junto ao genro Ângelo Preto, trouxe-nos dúvidas, pois, até aqui, não havíamos encontrado tal nome.  Ângelo Preto é citado em alguns documentos por nós pesquisados, como na resposta ao requerimento de Antonio de Pinho e Azevedo a D. Antonio Rolim de Moura:

Consta serem nomeados igualmente com ele por cabos o Capitão Ângelo Preto Nobre, Antonio Pinheiro de Faria, Francisco Leme de Moraes, Dionízio de Pontes Ribeiro e João Cardozo; todos os quais são bons sertanistas, principalmente Antonio Pinheiro de Faria, que não cede ao suplicante nem a nenhum dos que presentemente há na Capitania, na inteligência de abrir caminhos.21

No Termo da Junta do Senado de 18 de abril de 1736, já citado, há clara referência nominativa dos integrantes da dita expedição.  Consta que os escolhidos para tal empreitada foram os seguintes  sertanistas:    o  Cap.   Antonio  de  Pinho e Azevedo, o Cap. Angelo Preto Nobre, Antonio Pinheiro de Faria, Francisco Leme de Moraes; Dionízio de Pontes Ribeiro, João Cardoso, os mesmos encontrados no documento anterior, ficando assim a dúvida.  Ambos são documentos decisivos para estabelecer quem foram os sertanistas que enfrentaram a empreitada.

Rosa afirma que há dúvidas sobre a rota exata do caminho terrestre.  Diz ele que é algo a ser estabelecido.22

José Gonçalves da Fonseca, escrevendo por volta de 1750, indicou um trajeto que partia de Goiás:

“Também de Goiazes se abriu caminho para o Cuiabá, cortando a oeste, atravessando as cabeceiras dos rios Claro, Pilões e depois a do Bacairi e Mortes, fazendo estrada ao norte da cordilheira, a qual se atravessa para o sul e se busca o rio Cuiabá pela sua cabeceira.  Haverá nesta derrota três meses de jornada, em que não há mais perigo que o do gentio Caiapó.”

A esse roteiro em arco amplo, João Barbosa de Faria  opunha outro, 170 anos depois, embora sem indicar fonte precisa:

“(...) em 1737, com o caminho que Antonio de Pinho Azevedo abriu entre essa Vila [Cuiabá] e a de Goiás.  A vereda foi tirada de Cuiabá a Sant’Ana da Chapada; deste ponto à alta cabeceira do rio Manso, seguindo-lhe a costa, à distância, até 14º30’ Lat. e 8º50’ de longitude (Rio de Janeiro), donde rumou para o rio Grande do Araguaia, que ela atravessou na latitude de 16º35’.”

Este roteiro, delineado por Barbosa de Faria parece mais aceitável, por fazer referência ao rio Grande, ou Araguaia, omisso no roteiro de Fonseca.

Com a abertura do caminho terretre, dentro do contexto econômico, vem a pergunta:  qual a importância real do caminho terrestre para a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, no período que vai de 1736 a 1818, início da decadência das monções fluviais?

Barbosa de Sá  relata que, a partir de 1739, começa o fluxo migratório de Goiás para Cuiabá, e também em 1742 entrou pelo caminho “gente com fazendas, gados e cavalarias.”  Continua ele dizendo que quase sempre  chegava  uma Monção anual, quando não vinham por terra, “muitos comboios de gente com fazendas e cavalarias” , como aconteceu em 1760.  Além do fluxo migratório, costumavam vir pelo caminho terrestre, padres, juízes, ouvidores, outras autoridades, soldados.23